|
Uma
pequena marina pública em Salvador está recebendo acima de 10
regatas internacionais por ano ; quando há uma regata, os usuários
da marina (denominada Centro Náutico da Bahia) deixam as vagas
a disposição dos visitantes e o evento acontece em toda a sua
plenitude, divulgando Salvador para o mundo. É a criatividade
baiana somada a vontade política.
Os
navios transatlânticos, cada vez mais disputados pelos turistas
que procuram o mar como lazer, estão chegando ao Brasil com
novidades. A Linha C, que domina o mercado brasileiro há décadas,
já está começando a sentir a concorrência da Royal Caribean,
uma das maiores do mundo e com mega-ships acima de 3.000
passageiros, entrando no mercado. Cada mega-ship custa cerca de
300 milhões de dólares e, com um valor desses, certamente não
correrá riscos em aportar em portos e terminais que não
estejam preparados para recebê-los. No Brasil, por exemplo,
nenhum terminal de cruzeiros marítimos está preparado, ou pelo
menos equipado adequadamente, para operar com passageiros
exigentes, acostumados a ser bem recebidos nos portos de destinação
ou de escala.
Infelizmente,
essa atividade ainda não teve a devida atenção da parte das
autoridades brasileiras, que cruzam os braços e deixam
as coisas como estão, dentro do processo tumultuado de
privatização dos portos, onde o mais importante hóspede – o
transatlântico – é ignorado literalmente. Só no Brasil.
Em
Ubatuba, existem profundidades satisfatórias para um navio de
passageiros ancorar e realizar o transbordo de visitantes até
aquela cidade histórica; sem dúvidas que os atrativos turísticos
do litoral norte podem fascinar os visitantes embarcados, desde
que exista um mínimo de estrutura em terra firme,
para recebê-los. Não necessariamente um terminal de
cruzeiros marítimos, mas pelo menos um embarcadouro ou píer
mais estruturado, para esta função. O mesmo potencial existe
em Ilhabela e S.Sebastião, onde as profundidades são perfeitas
para os mega-ships.
Ilha
Bela já possui píeres antigos, que podem ser revitalizados
para servir como embarcadouro turístico náutico, tanto para os
cruzeiros marítimos quanto para o transporte marítimo, da
travessia para S.Sebastião.
Enquanto isso, a Ilha de Porto Belo, em S.Catarina, é hoje
roteiro anunciado em qualquer caderno de turismo, pelas linhas
de cruzeiro marítimo que se destinam a Buenos Aires ou daquela
cidade para o Rio de Janeiro. Tudo porque a pequena Ilha de
Porto Belo construiu uma estrutura de apoio náutico mínima,
explorando seus atrativos ecológicos (inscrições rupestres) junto aos
passageiros que ali desembarcam, enquanto outros são recebidos
por ônibus e passam o dia em Blumenau, Beto Carreiro World,
Florianópolis, e a noite voltam para o navio. Renda garantida
para o estado de Santa Catarina.
O
descaso do governo federal com relação a atividade náutica é
digno de nota. O último ministro do Turismo recebeu diversas idéias,
no decorrer de sua gestão, para aproveitar o potencial evidente
que o país oferece nesse setor. Foi convidado para a
Conferencia Internacional de Projetos no Waterfront, que se
realizou em maio último; foi alvo de cartas do exterior,
pedindo sua maior participação e atenção nesse setor náutico.
Infelizmente, nunca tivermos sequer uma resposta. O mesmo
acontece com a Embratur, que deixa o tempo passar e não
participa, não prestigia, um setor que em todo o mundo está
crescendo, promovendo o turismo de qualidade e resolvendo a carência
de empregos no litoral.
Em
resumo, o que falta é vontade política e o que o ocorre é
falta total de visão dos governantes brasileiros, a maioria dos
quais nascidos no interior do país e acostumados, portanto, a
uma postura “de costas” para o mar. Parece que o mar não é
assunto que lhes diga respeito.
Talvez a regionalização e a municipalização do turismo possa
equacionar esse impasse, de uma forma mais prática e local. O
que se percebe, num país como o nosso, é que pessoas em Brasília
não estão afinadas com detalhes que são importantes para os
moradores de Caraguatatuba ou de São Vicente; se o rio
Juqueriquerê deve ser dragado; se a área do antigo porto de
Ubatuba deve ser passada para aquela cidade e destinada ao
turismo náutico; se os prejuízos do indecente aterro em frente
a São Sebastião deve ser indenizado aos moradores, em forma de
permuta e obras; enfim, são muitas questões que localmente
importam mas que, aos burocratas de plantão, essas reinvidicações
são remotas e até chamadas de “sonhadoras”.
O
tempo que se perdeu no Litoral Paulista, nós o registramos.
Afinal, temos sido
vigilantes observadores neste setor de turismo náutico. Foi, na
verdade, uma década perdida em que muito se falou sobre
marinas, muitos planos que custaram aos cofres públicos ficaram
engavetados e praticamente nada se realizou de concreto. A
grande maioria das estruturas de apoio náutico que surgiram em
S.Paulo, nestes últimos 10 anos, foram garagens náuticas mais
sofisticadas e nenhuma marina para valer. A resistência a novas
idéias e a novos projetos também deixou sua marca danosa: uma
marina aprovada, depois de 7 anos de discussão na secretaria do
meio-ambiente, mas cuja aprovação foi tardia, pois o
empreendedor já não tinha mais recursos ou interesse em
promover esse empreendimento de qualidade.
Enquanto
isso, no Rio de Janeiro, mais precisamente na região de Angra
dos Reis, o prefeito do PT, Sr. Castilho, na sua terceira
administração, está comemorando com os seus eleitores o
sucesso que vem ocorrendo na região. Novos resorts, marinas, píeres
e até shoppings (“malls”) com marinas estão revitalizando
a região de Angra, principalmente a parte urbana, que sempre
foi o “patinho feio” daquele paraíso náutico. Empregos e
mais empregos estão sendo gerados, através dessas iniciativas,
da área privada com o apoio da área pública. Angra já é
responsável por 70% do mercado náutico em todo o país, pois
assumiu que o barco é o transporte mais coerente para se
visitar aquele paraíso; os seus moradores assumiram que só
através dos resorts, hotéis, marinas e atividades náuticas é
que se ganha dinheiro numa região predestinada ao turismo de
qualidade. Enfim, é um exemplo a ser avaliado pelos
administradores públicos do estado vizinho, S.Paulo, que
inclusive, por falta de marinas, vem perdendo barcos, que se
mudam todo o ano para Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.
Esse
processo vem ocorrendo há quatro anos, não só com embarcações
de recreio como também quanto a compra de imóveis em resorts,
onde os paulistas surgem como um dos principais clientes em
Angra dos Reis.
Pelas inúmeras
restrições e dificuldades, principalmente pela falta de
estruturas náuticas adequadas, como as marinas, espantaram também
usuários de embarcações de recreio que optaram pelo interior
do Estado de S.Paulo, onde as marinas em represas oferecem opções
menos complicadas que no litoral.
A
reflexão dos administradores públicos, com relação a esta
realidade e as tendências acima, é fundamental para o futuro
da região. Em países com extrema carência de atrativos
naturais e abrigos, o homem priorizou a atividade náutica e, a
um custo bilionário, alcançou resultados positivos. É o caso
de Israel, recentemente apresentado na Conferencia Internacional
de Projetos no Waterfront. Aquele país foi obrigado a fazer
enormes obras de engenharia, grandes molhes para suportar ondas
de até 7 metros e altura, aterros, etc.
Acho
que não precisamos chegar a este extremo, pois temos tudo –
em termos geográficos e físicos, assim como em termos de
demanda de mercado / a maior da América Latina – para
conseguirmos sucesso a curto prazo. Só nos falta a vontade política,
a determinação e a união dos interessados nessa empreitada
que será, com certeza, um modelo a ser seguido por outros
estados e até países.
É por aí. Outro caminho corre o risco de termos mais uma década
perdida, de projetos engavetados, de regatas passando ao largo
de comunidades desprestigiadas e de costas para o mar.
|