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O
Brasil é, reconhecidamente, o país com o maior potencial, no
mundo, para desenvolver atividades náuticas. Esse
reconhecimento vem crescendo a cada ano, quando aqui aportam
especialistas em “boating facilities”, um setor que
representa, na soma de todos os países,
17 bilhões de dólares a cada ano que passa. Isso inclui
a produção de embarcações de recreio (veleiros, lanchas,
jet-skis, infláveis, barcos a remo, etc), equipamentos para
marinas, docas flutuantes, vestuário náutico, peças e acessórios,
motores de popa, etc.
Há
pouco tempo, entre os dias 13 e 16 de maio, em Florianópolis,
Santa Catarina, reuniram-se os representantes de 25 associações
de industrias náuticas do mundo, para um encontro periódico
promovido pelo IBFC (International Boating Facilities Committee),
o principal comitê da poderosa ICOMIA (International Council of
Marine Industries Association), a entidade com maior prestígio
no mundo náutico, com sede em Londres, Inglaterra.
Parte
desses importantes visitantes palestraram, no mesmo período, na
Conferencia Internacional de Projetos no Waterfront, criada e
realizada pelo IMB – Instituto de Marinas do Brasil, o qual
tenho a honra de presidir, desde sua fundação, em 1992.
A maioria
dessas pessoas nunca haviam pisado no Brasil. Conheceram apenas
um pedaço deste “país continente”, ou seja, Florianópolis
e a região de Angra dos Reis, além do Rio de Janeiro.
Como
especialistas no assunto de portos de recreio, marinas, resorts,
barcos, complexos de turísticos no waterfront, ficaram
convencidos de que o Brasil tem tudo para fazer parte do grupo
de países, cada vez maior, que se beneficiam das vantagens econômicas
e sociais da atividade do turismo náutico.
O
Caribe continua sendo a meca do turismo náutico mundial, mas
nem tudo é “céu azul”por lá. A atividade se retrai por um
bom período do ano, com os furacões e severas tormentas
tropicais derrubando
tudo por onde passam. As embarcações, nesse período, costumam
se deslocar para outros paises ou são ancoradas e amarradas,
por cabos, dentro
dos manguezais, tal a devastação que as intempéries provocam.
O
Mediterrâneo, com enorme frota de embarcações de recreio
(França, Espanha, Itália, Turquia, Portugal, etc),
praticamente pára durante os meses de inverno, pois é insuportável
praticar esportes náuticos no frio europeu. O mesmo acontece no
Canadá, nos Estados Unidos, entre outros países do hemisfério
norte. No lago Michigan (USA) por exemplo, existe um milhão e
meio de embarcações de recreio, guardadas geralmente em
marinas da região. Durante o inverno, o imenso lago congela e
esses barcos costumam ser retirados para a terra firme. As taxas
de permanência em marinas caem pela metade, devido a esta
sazonalidade.
Na
Argentina, há uma enorme concentração de barcos na região do
delta do Tigre e a maioria de seus usuários se conforma em
explorar os rios estreitos e barrentos que deságuam no Rio da
Prata. Durante o inverno, que é rigoroso, o movimento cai
expressivamente, diminuindo a atividade náutica e, no verão, o
calor e a umidade dessa região plana da Argentina provoca o
desconforto dos usuários de barcos de recreio.
Nada
disso acontece no Brasil, onde existem grandes cidades junto ao
mar, enormes faixas de área litorânea com ventos e ondas
amenas, além dos atrativos naturais, como baías, penínsulas,
barras de rios, ilhas, além de praias espetaculares. O clima
tropical predomina na maior parte das regiões litorâneas;
existem estados, como a Bahia, que chegam a ter mais de 1.000
quilômetros de litoral, incluindo
atrativos como Abrolhos, Morro de S.Paulo, Camamú, Bahia de
Todos os Santos....
Os ventos
alísios, sopram eternamente na mesma direção e numa
intensidade perfeita para a navegação, conduzindo com segurança
os veleiros que procedem da África e da Europa, em direção ao
nosso continente.
O país está
conectado por uma rede de aeroportos que atende a praticamente
todos os cantos do Brasil; existe um povo amigável e
hospitaleiro, a cada porto de chegada.
Então,
o que está faltando para este país sair de um estágio letárgico
de desenvolvimento náutico.... Para ser um líder nessa área,
a nível internacional?
Porque
temos só 27 marinas , ou seja, estruturas de apoio náutico com
vagas molhadas (acima de 150 vagas) e com suporte receptivo
condizente ? Porque a grande concentração de guarda de barcos
ainda é representada pelas 200 “garagens náuticas”, as
quais, com raras exceções,
são hangares entupidos de barcos, sem segurança, sem
operacionalidade e sem conforto para o usuário? Porque a
atividade é considerada elitista, já que os iates-clubes são
fechados e estão entre esse grupo de 200 estruturas de apoio náutico?
Os números
desse setor não batem com o tamanho e as condições favoráveis
do Brasil, para a prática de esportes náuticos: o país tem
130.000 barcos registrados; 27 marinas e cerca de 200 garagens náuticas
e iates-clubes.
No
mundo todo, estima-se que existam 35 milhões de barcos de
recreio, 50% dos quais estão nos USA e no Canadá, 24% na
Europa e o restante distribuídos por outros países.
A relação
“barco por habitante” se destaca na Nova Zelandia, Suécia,
Finlandia, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos e Australia. 70% dessas embarcações são a motor, 11% a vela, e 19%
movem-se por outro tipo de
propulsão (a remo, por exemplo). As estimativas revelam
8.363 marinas na Europa, com 1.7 milhões de poitas. Os USA tem
acima de 12.000 marinas, com mais de 1 milhão de vagas. Na
Europa, 13.2% de todos os barcos de recreio são docados em
marinas. Estima-se que 50% de todas as vagas de barcos estejam
nos USA e Canadá; 39% na Europa e 11% nos demais países.
Voltando ao Brasil, mais especificamente ao Litoral Paulista,
nossas pesquisas (de 1998) revelam que existem 29 estruturas de
apoio náutico, entre S.Vicente e Ubatuba. O preço médio por
barco é de R$ 12,00 por pé / mês, ou seja, um barco de 30 pés
custará R$ 360,00 para ser guardado numa garagem náutica,
mensalmente.
Outro dado
importante é que os iates clubes empregam acima de 100 funcionários,
por estabelecimento (I.C.Ilhabela : 130 funcionários, fixos +
variáveis; I.C.Santos, 180 funcionários; I.C.Ubatuba, 61
funcionários), sendo que as garagens náuticas variam conforme
o tamanho. Muitas dessas garagens náuticas surgiram há 50 anos
atrás e sobreviveram até os dias de hoje, prestando serviços
e empregando pessoas da região. Uma atividade legítima,
a ser, por todos, reconhecida .
Apesar do potencial para a atividade de turismo náutico no
litoral paulista, existem pouquíssimas marinas operando nessa
região. A concentração maior está no Canal de Bertioga
(Marinas Nacionais, Vindumar, Tropical Náutica, do Guarujá) e
nos meandros do canal de Santos (CING, Astúrias, etc). Existem,
entretanto, diversas garagens náuticas atendendo principalmente
a frota de lanchas de menor porte, que podem ser guardadas em
terra, sendo puxadas e lançadas a água com tratores ou
guinchos elétricos. Muitas delas não tem rampa, utilizando-se
da própria praia para rebocar as embarcações.
Esse
litoral, apesar de estar desguarnecido de estruturas de apoio náutico,
representa um potencial incrível para a atividade, já que
possui todas as características procuradas pelos navegadores de
fim de semana e por aqueles de passagem pela região, na rota
Norte/sul ou inversa. As escalas naturais são perfeitas, para
quem, por exemplo, sai de Santos e se destina a Ubatuba. Na saída,
poderá optar por percorrer o canal de Bertioga, através de um
“mar de manguezais”, um dos mais exuberantes do país;
deixando Bertioga para trás, chegará num ponto abrigado
chamado “As Ilhas”, já no município de S.Sebastião;
depois terá pela proa Ilha Bela ou S.Sebastião, duas
interessantes opções de fundeio, dependendo das condições metereológicas. A seguir, terá a Ilha do Tamanduá, em
Caraguatatuba, como abrigo provisório, de passagem. Depois, o
Saco da Ribeira em Ubatuba, ou antes, a Enseada da Fortaleza.
Entre outras opções, dependendo sempre da direção dos
ventos.
Muitas outras opções poderiam e deveriam existir, para
facilitar e promover a
navegação de embarcações de recreio ao longo do litoral
paulista. Os próprios rios existentes, que nunca foram dragados
e hoje estão praticamente assoreados devido as construções a
montante, são vias navegáveis legítimas que deveriam ser
resgatadas pelo poder público, criando assim um acesso e uma
motivação turístico – náutica que hoje é praticamente
impossível.
As
cidades ao longo desse exuberante litoral, deveriam colocar em
prática a construção de marinas públicas, que fossem não
somente um ponto de estacionamento de barcos, mas principalmente
o atrativo mais forte de cada uma dessas comunidades, a exemplo
do que vem ocorrendo no mundo inteiro. A marina é “a janela
da cidade”, é onde as pessoas se dirigem para descontrair,
para observar o mar, a atividade náutica e as pessoas. Não
necessariamente para andar de barco. Está provado que mais de
50% dos visitantes em marinas chegam ali por terra e a maioria não
possuem barcos. É uma massa crítica de consumo que não pode
ser ignorada.
São
Sebastião vem, há mais de 10 anos, planejando sua marina pública.
Em 1995, a Marinas do Brasil & Associados chegou a realizar
um estudo técnico que resultou num projeto preliminar de uma
marina que atenderia os anseios da população, além de receber
a famosa regata Withbread (hoje chamada de Volvo Race Around the
World), que é considerado o evento de maior impacto de mídia
mundial, depois da Copa do Mundo e das Olimpíadas.
S.Sebastião
recebeu a Withbread em 1998, sem ter uma marina apropriada. Os
barcos ficaram acomodados no porto de cargas daquela cidade.
Obviamente, essa regata mudou de endereço, no Brasil, por não
ter recebido em S.Sebastião as acomodações previstas.
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